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Procurando Nemo. E outros bichos também
Widson Porto Reis

Não são poucos os críticos que dizem que o melhor filme do ano de 2003 não foi um filme, mas o longa de animação "Procurando Nemo", da Pixar. Numa época de efeitos especiais sensacionais e blockbusters como Matrix, Homem-Aranha e Senhor dos Anéis, Procurando Nemo se destacou não só pela exuberância técnica, mas por um ótimo roteiro, qualidade raríssima no cinema de hoje. No filme, o peixe-palhaço Marlin é um pai super protetor que atravessa o oceano à procura de seu filho, Nemo, apanhado por um mergulhador ao se afastar imprudentemente dos corais em que vivia. Na jornada para encontrar seu filho, Marlin é ajudado por personagens engraçadíssimos, como Dory, uma peixinha que sofre de perda de memória recente, e um bando de tartarugas marinhas surfistas em migração.

Procurar peixes e animais marinhos ameaçados de extinção e determinar seus hábitos migratórios é uma das atividades dos satélites do NOAA (National Oceanic and Atmosferic Administration), o serviço meteorológico americano. Aliás, por causa de sua função, geralmente arauto de más notícias, o NOAA costuma ser citado em filmes catástrofes, como o recente "Mar em Fúria" ("The Perfect Storm") com George Clooney e Mark Waldberg (aliás deve-se a um funcionário do NOAA a invenção da expressão "tempestade perfeita" que deu origem ao nome deste filme).

Embora não tenham muito interesse em rastrear peixes-palhaço como Nemo, os cientistas dedicam muita atenção a outras espécies menos peculiares, como por exemplo o atum. Como possui um grande valor comercial, o atum é vítima da pesca predatória e sua população está em franco declínio. Sorte de Nemo que ele era apenas um peixe palhaço e não um atum, ainda que no fim do filme quase tenha sido apanhado numa rede cheia deles justamente por um barco pesqueiro de atum. Outro animal marinho monitorado pelos satélites do NOAA é a tartaruga marinha, exatamente como aquelas que no filme pegam uma carona na corrente oceânica que leva o pai de Nemo à costa da Austrália.

Mas como satélites monitoram animais a centenas de quilômetros acima da Terra? Primeiramente os cientistas prendem aos animais pequenos transmissores. Estes transmissores enviam ondas de rádio que são captadas por dois satélites do NOAA especialmente equipados com um sistema especial conhecido por ARGOS. O sistema ARGOS é um empreendimento conjunto do NOAA, da NASA e da agência espacial francesa, a CNES, destinado exclusivamente à pesquisa ambiental.

Para determinar a posição do transmissor, os satélites do NOAA usam o efeito Doppler. Para entender o efeito Doppler imagine que você está em um carro em movimento e passa por um outro carro que está buzinando, imóvel num engarrafamento na contra-mão. À medida que seu carro se aproxima o som da buzina parece mais agudo, enquanto que à medida que se afasta ele parece mais grave. Isto acontece porque as ondas sonoras emitidas pela buzina são como ondas no mar atingindo seu ouvido; quanto mais ondas chegam em um determinado período de tempo maior a frequência do som que você ouve, e quanto maior a frequência do som mais agudo ele é. Quando você está se movimentando em direção às ondas sonoras acaba atravessando um número de ondas maior do que o que passaria por você se estivesse parado (assim como uma lancha atravessa mais ondas se navega em direção a elas). O contrário acontece quando você se afasta da buzina: com menos ondas chegando ao seu ouvido num mesmo intervalo de tempo, a frequência do som é menor e ele é mais grave. No ponto em que a buzina se encontra à menor distância possível do seu ouvido a frequência que você ouve é a mesma da buzina (a mesma que ouve todo o tempo o motorista do carro parado). Este é o mesmo princípio dos satéites do NOAA, só que em vez de ondas sonoras, o satélite viajando pelo espaço "escuta" as ondas eletromagnéticas enviadas pelo transmissor, lá embaixo na Terra. Quando o satélite "ouve" uma frequência igual a que o transmissor está emitindo (que ele conhece), é sinal de que está o mais próximo possível dele. Conhecendo-se a órbita e velocidade do satélite assim como a velocidade das ondas de rádio (igual a velocidade da luz) é possível calcular a posição do transmissor com uma precisão que varia de 150 a 1000 m.

satélites
O principal uso do ARGOS é na pesquisa oceonográfica (que responde por mais da metade do uso do sistema) mas qualquer coisa na qual se possa fixar um minúsculo transmissor de 15 gramas pode ser monitorado: aves, animais selvagens, barcos (especialmente os pesqueiros, para saber se estão nas áreas delimitadas para pesca), aventureiros em terras inóspitas (os exploradores de hoje não são como os de antigamente), caminhões com carga sensível e até mesmo o gelo das calotas polares, para medir seu deslocamento. Desta maneira, além do que fazem os peixes no oceano, os oceanógrafos podem saber o que faz o próprio oceano. Com transmissores ancorados ou à deriva em bóias, os pesquisadores são capazes de determinar o movimento das marés, nível dos oceanos, velocidade e direção das correntes oceânicas. Hoje em dia há milhares de transmissores espalhados pelos sete mares monitorando-os e enviando zilhões de bytes de informação para os satélites do ARGOS. Mas é claro que nem sempre o estudo do oceano foi tão high-tech assim.

Príncipe Albert O princípe Albert I de Monaco foi um dos primeiros oceanógrafos de que se tem notícia. No final do século XIX, naquele romântico tempo em que um homem podia se lançar ao estudo da ciência movido só pela curiosidade e paixão e desvinculado de financiamentos do governo (claro que neste aspecto a generosa conta bancária da família real ajudou bastante) este aristocrata lançou ao mar centenas de garrafas e esferas ocas de bronze com mensagens que pediam a quem as encontrasse que as devolvessem ao remetente contando onde as haviam encontrado. Com as respostas que recebeu, o princípe Albert pôde estabelecer e mapear pela primeira vez, sem a ajuda de satélites nem transmissores, o sentido de rotação das correntes marinhas no Oceano Atlântico.

Albert I morreu em 1922 com 72 anos de idade. Antes disso construiu em Monaco um grande museu náutico que hoje é visitado por mais de um milhão de pessoas por ano. O maior destaque do museu é o impressionante aquário contendo um coral vivo no qual se pode ver, entre outras espécies, o peixe anêmona. Este peixe recebe seu nome por viver entre os tentáculos de um venenoso animal parecido com uma planta aquática, chamado anêmona, mas graças às suas cores vivas e listras brancas o peixe anêmona atende mesmo é pelo nome de peixe-palhaço. Sim, isso mesmo, o nome do pequeno Nemo não veio apenas do famoso capitão do livro de Júlio Verne...

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Quem escreve
Alexandre Taschetto
Widson Porto Reis

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