
"A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça" e o descobrimento da América.
Widson Porto Reis
Dirigido por Tim Burton, o mesmo diretor de "Batman", "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça"
(1999) é um ótimo filme de mistério, romance e fantasia. O filme se passa em 1799 quando o excêntrico detetive
novaiorquino Ichabod Crane, vivido por Johnny Deep, é enviado ao pequeno vilarejo de Sleepy Hollow
para investigar uma série de crimes atribuídos a uma criatura fantástica que vaga por lá sem cabeça (Christopher
Walken). No curso das investigações, Ichabod se enamora da filha do prefeito, Katrina Van Tassel (Cristina
Ricci) e enfrenta a resistência dos moradores locais, avessos à sua abordagem cético-científica e aos novos
métodos de investigação forense que traz consigo.
Mesmo que você não tenha assistido ao filme, talvez tenha visto o desenho animado da Disney (de 1949),
tantas vezes reprisado nas manhãs de domingo para deleite daqueles que têm mais de trinta anos. Enquanto
o filme possui aquele clima gótico de conto de fadas dark característico de Tim Burton,
o desenho tem o mérito de ser muito mais fiel ao conto que lhe deu origem: o clássico
"The Legend of Sleepy Hollow", publicado
em 1819 pelo grande escritor americano Washignton Irving.
Washington Irving foi um dos primeiros escritores americanos a ser reconhecido internacionalmente. Além de
contos e ensaios, poemas e livros de viagem, Irving foi um respeitado historiador e escreveu diversas biografias,
entre elas uma grandiosa obra em cinco volumes sobre a vida de George Washington e … sim claro, aí está nossa
conexão: uma biografia de Cristovão Colombo.
Mas esta mera ligação entre o filme de Tim Burton e o navegador italiano não valeria o esforço se não fosse
a tremenda, e de certa forma negativa, influência que a biografia escrita por Irving representou para o ensino
da história e da ciência até os nossos dias. Façamos um teste: você acredita que Colombo foi um homem à frente
do seu tempo movido pela revolucionária convicção de que a Terra era redonda, enquanto todos os outros,
navegadores e pensadores, especialmente a toda poderosa Igreja Católica, acreditavam que a Terra era plana?
Você acha que Colombo foi um homem que, mesmo sendo ameaçado de heresia pelos padres da Igreja, perseguiu
seus nobres ideais e teve sua determinação recompensada ao descobrir a América?
Se você pensa assim então está na hora de rever seus conceitos; há pelo menos duas inverdades na afirmação
acima: a primeira está relacionada às verdadeiras motivações de Colombo para chegar às Índias que parecem ter
sido menos nobres do que se conta nos livros escolares; a segunda é a que nos interessa: a de que a Terra era
considerada plana no tempo de Colombo. Ambas foram perpetuadas graças ao livro de Irving.
Irving parece ter se empolgado um pouco no desejo de tentar retratar o italiano Cristovão Colombo como um
explorador tão heróico quanto os famosos exploradores ingleses da época, inventando muitas passagens que nunca
ocorreram e misturando fatos históricos com pitadas de ficção. Por exemplo, o episódio do Conselho de Salamanca
que Irving narra em seu livro, onde um grupo de eruditos formado por professores e padres da Igreja teria acusado
Colombo de heresia por ele defender a idéia de que a Terra fosse redonda, nunca ocorreu. De acordo com os
historiadores modernos, este episódio é tão lendário quanto o Cavaleiro sem Cabeça que assombrava
Sleepy Hollow.
Pois não havia dúvida na época de Colombo que a Terra era redonda. Isto já era sabido muito, muito tempo antes de
Cristovão Colombo. Os filósofos gregos, aqueles sábios senhores enrolados em suas togas brancas, já no século III a.C.
conheciam bem o fato de que a Terra era esférica e tinham até mesmo uma boa noção de seu tamanho . É bem verdade que
a idéia de uma Terra redonda suscitava dificuldades para a imaginação (será que a chuva caíria para cima no
"outro lado" do mundo?), mas era encarada com pouca controvérsia pelos pensadores antigos.
Mas como os gregos conheciam o tamanho da Terra se não dispunham de teodolitos, instrumentos óticos, relógios,
GPS, e nada além de passos para medir grandes distâncias? O primeiro a "medir" a circunferência da Terra
foi o grego Erástotenes, em uma experiência que é considerada uma das dez mais brilhantes da ciência em todos os
tempos. Erástotenes percebeu que quando o sol estava na sua posição mais alta no céu, ou seja ao meio dia, o sol
podia ser visto refletido no fundo de um poço na cidade grega de Siene (que hoje se chama Assuã – só para o caso
de você procurá-la no mapa). Isto indicava que naquele momento os raios solares estavam exatamente acima da cidade.
Mas ao meio dia na cidade de Alexandria, que ficava a cerca de 800 km ao sul de Siene, os raios solares projetados
em uma estaca produziam uma pequena sombra (veja a figura).

Mas espere um pouco … como Erastótenes sabia que era meio dia em Alexandria, se não havia relógios naquele tempo?
Bem, quando o sol está na posição mais alta do céu a sombra projetada por uma estaca é a mínima possível, por isso,
tudo o que ele precisava fazer era medir a sombra em intervalos regulares e quando ela começasse a aumentar, utilizar
a medida anterior. Medindo o comprimento da sombra projetada em Alexandria ao meio dia e supondo que os raios do sol
que chegam às duas cidades são paralelos (o que pode ser considerado verdade já que o Sol está a uma distância muito
maior da Terra do que uma cidade está da outra) Erastótenes podia fazer um cálculo geométrico bastante simples para
determinar o comprimento da Terra; para isso primeiramente precisava determinar o ângulo A da figura. Mas calcular
ângulos não era problema nenhum para os pais da geometria:
tangente(A)= (comprimento da sombra)/(altura da estaca) e para o valor de A, Erastótenes encontrou 7,2 graus.
Erastótenes conhecia a distância entre as cidades de Siene e Alexandria pois tinha pago a alguém para contar quantos
passos havia entre elas. Esta distância era de 5040 stadia (a unidade grega para medir comprimentos). Sabendo que
5040 stadia era a distância compreendida pelo ângulo de 7,2 graus, qual seria a distância compreendida pelo ângulo de
360 graus? (a circunferência completa da Terra). Fazendo esta regra de três simples Erastótenes encontrou o resultado
aproximado de 250.000 stadia.
Sabemos hoje que o stadium grego valia algo em torno de 160 metros (um pouco mais ou um pouco menos de acordo com o
historiador), mas Colombo acreditava que este valor era muito menor e acabou concluindo que a Terra tinha em torno de
20% do seu tamanho real. É por isso que enquanto todos os outros consideravam a travessia do Atlântico impossível,
Colombo achava que poderia fazer a jornada em apenas algumas semanas. Sorte de Colombo que a América estava bem em
seu caminho …
Agora, se você quiser saber mais sobre o mito da Terra Plana e como ele chegou aos nossos dias, leia o artigo
postado no Projeto Ockham.
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Quem escreve
Alexandre Taschetto
Widson Porto Reis
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