
"O Casamento grego", línguas alienígenas e o continente africano
Alexandre Taschetto
Se você assistiu o filme "O Casamento Grego" certamente se divertiu com as manias estranhas
do pai da noiva, que insistia que qualquer problema de pele pode ser curado com um produto
de limpeza e qualquer palavra existente tem sua origem em uma palavra grega. Esta relação
histórica com a cultura grega era teimosamente defendida para as palavras mais absurdas,
para o desespero do restante da família.
Exemplos reais de palavras com origens gregas são apresentados em nossos estudos escolares
da língua portuguesa e encarados como pouco mais que uma curiosidade. O que pouca gente
sabe é a quantidade de conhecimento que pode ser obtido a partir do estudo da evolução
das línguas: a linguística histórica.
Praticamente todas as línguas européias (incluindo, obviamente, o nosso português e
também o grego) são descendentes de um dialeto falado por uma tribo que vivia onde
atualmente fica a Ucrânia, por volta de 6.000 atrás. Nesse meio tempo, este dialeto
foi gradualmente se espalhando e se modificando, dando origem a uma família de mais de
140 línguas, conhecida como Indo-Européia.
E daí? O histórico da evolução de uma família de línguas nos dá pistas para descobrir
em que épocas certos desenvolvimentos culturais e tecnológicos ocorreram. Veja por exemplo,
a palavra ovelha. Ou "avis" em lituano e sânscrito, "ovis" em latim,
"oveja" em espanhol, "ovtsa" em russo, "owis" em grego e
"oi" em irlandês. Todas estas palavras têm obviamente
uma origem comum que pode ser rastreada até o dialeto original da família Indo-Européia.
Isto sugere que aquela tribo já conhecia e domesticava ovelhas e isto é confirmado por
evidências arqueológicas. Por outro lado, o mesmo não pode ser feito para arma de fogo,
ou "gun" em inglês, "fusil" em francês, "ruzhyo" em
russo e assim por diante. Obviamente ,
armas de fogo surgiram bem depois da diferenciação destas línguas e cada uma teve que
inventar uma palavra própria.
A distribuição geográfica de grupos linguísticos também nos fornece dicas a respeito de
movimentos populacionais. O inglês, por exemplo, espalhou-se pela América do Norte,
Austrália e outros países e, se não conhecessemos sua origem, poderíamos achar que ele
havia nascido nos Estados Unidos, onde se encontra atualmente o maior número de falantes
dessa língua. Mas a língua inglesa tem vários "parentes" próximos – o alemão, o holandês,
as línguas escandinavas e outros – todos amontoados no noroeste da Europa e o mais próximo
deles é um dialeto falado em uma pequena parte da costa holandesa e alemã. A partir daí
podemos deduzir que o inglês nasceu nesta região. De fato, sabemos por registros históricos
que o "avô" do inglês britânico moderno foi levado dali para a Inglaterra por anglo-saxões
que a invadiram nos séculos V e VI, de onde se espalhou pelo resto do mundo.
Um raciocínio semelhante ajudou pesquisadores a chegar a uma conclusão bem mais curiosa.
Se você já viu algum alienígena de Holywood falando em uma língua estranha cheia de
"cliques" (como no filme "Sinais"),
fique sabendo que esta característica linguística tem uma origem mais "terráquea". Alguns
dialetos africanos, como os falados por um grupo étnico denominado Khoisan, usam cliques
como consoantes. Junto com evidências arqueológicas, o estudo das variantes linguísticas
desta tribo e de outros povos africanos revelou que, há alguns milhares de anos, os
Khoisan, juntamente com os pigmeus, dominavam a maior parte da África ao sul do Saara.
Os antepassados da raça negra modernamente associada ao continente africano, um grupo
denominado Bantu, ocupavam apenas a pequena área atualmente correspondente a Camarões
e Nigéria, na costa oeste. Entre 3.000 a.C e 500 d.C, seu desenvolvimento tecnológico
superior ajudou os Bantu a se espalharem pelo resto do continente, empurrando os Khoisan
e pigmeus para algumas regiões isoladas e formando a distribuição étnica que todos
associamos hoje em dia à África.
< Voltar
|
|
Quem escreve
Alexandre Taschetto
Widson Porto Reis
Dos mesmos produtores
Projeto Ockham
|